quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

A Desejada

Ângelo desceu do ônibus lotado, retornando de mais um dia de procura de emprego. Convenhamos que ele não tenha feito muito isso recentemente, pelo menos nos últimos trinta e quatro anos, a sua idade. O calor não está aliviando ninguém. Fritava-se um ovo no asfalto em um minuto se o jogasse no meio da rua. Estava aflito por uma ducha de água fria, o que não acontecia na sua casa, pois a caixa d'água ficava na laje sem cobertura, diretamente na visada da principal estrela do sistema solar, o sol.

No caminho, há poucos metros de casa, ele avistou um senhor cuja idade já atravessava os sessenta, que estava sentando, aparentemente sozinho, numa mesa de um bar. Ao se aproximar um pouco mais, notou que sua visão o enganava: o velho estava acompanhado, e muito bem a propósito. Não foi possível vê-la, digo a companheira, de frente, mas logo foi dando uma coisa por dentro dele, coisas que só um vulcão sabe quando está em erupção, a cada passo que se aproximava da mesa.

O encanto que ele sentia por ela era incomensurável, ainda mais em tal momento de carência. Ângelo era completamente apaixonado por ela, pena que não tinha como pagar todos os dias em troca de sua presença, da sua companhia, do seu poder de refrescamento de memória e corpo, pois a grana era curta. Entretanto, o pouco que tinha sempre se fazia presente ao seu lado. E era o que desejava naquele momento cálido.

Enfim, já dentro do bar onde o velho e a loira estavam presentes, enfiou a mão no bolso com tamanho entusiasmo e encontrou o valor suficiente para poder pagar aquele momento de prazer que tanto o despertava ao lado da desejada. Debruçou-se ao balcão e pediu uma cerveja extremamente gelada. Encheu o copo com um olhar de lobo no cio, e bebeu-a, com olhos fechados, blusão entreaberto, praticamente num só gole.
 
 
Por Leo Nunes - 24.05.10

Na Base do Beijo

Tem coisas que me faz rir. Umas mais, outras menos, mas essa foi demais. Vi uma reportagem no jornal da tarde dizendo que em Divinópolis, interior de Minas Gerais, existe um bar que proibe os casais de se beijarem na boca dentro do recinto. Nem um tipo de contato labial. Selinho? Nada. Proibido. Com direito a placa na parede e aviso no cardápio. Ao ser entrevistada, a dona do estabelecimento disse que o problema é que tudo começa com um simples estalinho, depois passa para um beijo mais quente, e por isso a proibição, para evitar o que pode acontecer além disso.

Por outro lado, num shopping em Bangu, aqui no Rio, há uma promoção no cinema que é a seguinte: todas as terças-feiras, o casal que se beijar em frente à bilheteria, ganha o direito de pagar meia entrada para assistir aos filmes em cartaz.

Agora vejam só, se a microempresária tem medo de cenas impuras em seu restaurantes, que é um lugar movimentado e com luz clareando o ambiente, imagine você o que deve acontecer no escurinho do cinema após a preliminar do tal "desconto" do beijo na boca? Se ela tiver conhecimento disso, é capaz de ter um infarto e cair de costas no chão com os lábios duros fazendo biquinho para o alto.

Tem cabimento?
 
 
Por Leo Nunes - 28.05.10

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Favor X Obséquio

- Boa tarde! Por obséquio, uma Brahma bem gelada!

- Desculpe, senhor...por o quê?

- Por obséquio, uma Brahma...

O rapaz que estava no balcão mirou um olhar desconfiado no freguês, como se estivesse sido xingado ou algo parecido.
Sendo assim, ao perceber a interrogação explícita na testa do sujeito, novo pedido:

- Por favor, uma cerveja gelada...

Lentamente, olhando-o com o canto dos olhos, ele seguiu em direção ao freezer, pegou a garrafa pela ponta, quase pela tampa, trouxe-a até o balcão juntamente com um copo, abriu-a e os empurrou para perto das mãos do cliente, que se deliciou com a bebida estupidamente gelada.

O cara do bar ficou vigiando o cidadão tomar aquela cerveja gole a gole até a sua despedida. Logo após esse momento tão esperado pelo balconista, ele retirou uma folha do caderno de anotações, pegou uma caneta e escreveu o seguinte antes de colá-la na parede de fora do estabelecimento:

"NÃO VENDEMO BEBIDAS POR OBIZEQUI NEM FIADO. SOMENTE DINHEIRO. NÃO INÇISTA".
 
 
Por Leo Nunes - 17.12.10

Mutilados

Estava conversando com um amigo e ele alertou uma coisa bastante curiosa: após a invasão das Polícias Civil e Militar e das Forças Armadas no Complexo do Alemão, não houve um consenso entre as autoridades acerca do número de mortos nos confrontos.

Por outro lado, as vítimas, digo bandidos, estão aparecendo aos poucos, de forma mutilada, como se Jack, o estripador, fosse do BOPE.

Durante esses dias, surgiram algumas notícias nos jornais:

"Cabeça, gerente da Fazendinha, foi preso"

"Costela é pego numa blitz da PM"

"Encontrado Pezão do Alemão"

"Marco Barriga é baleado em confronto com o BOPE no Complexo do Alemão"

"Orelha foi preso junto com 14kg de maconha na Vila Cruzeiro"


E por aí vai...


Por Leo Nunes - 17.12.10

sábado, 8 de maio de 2010

Urna Duvidosa.

Não me faltaria assunto se eu quisesse falar sobre as tragédias que as chuvas causaram no estado do Rio de Janeiro nesta semana.

Muitos culparam a própria população prejudicada, que jogam lixo nas ruas e constroem casas nas encostas dos morros; outros, os governantes que fazem pouco caso disso tudo, muitas vezes tapando o sol com a peneira, entre outros culpados. Mas não. Chega de notícias tristes. Será que chega mesmo?

Isso tudo me fez lembrar de outra desgraça que está por vir: as eleições para presidente. Não pelo fato daquele ritual e da obrigação de ter que ir votar, mas pelo simples fato da falta de opção que teremos. Assustei-me quando parei para pensar nisso. Procurei em vários meios de comunicação as alternativa que teremos apostas às esperanças de um Brasil melhor, e quase cai duro para trás. Simplesmente, não há opções agradáveis. Já viram os candidatos de maior expressão? Não? Então não faça isso agora, caso contrário, ficará como fiquei, como um peru perto do Natal, sofrendo de véspera.

Cabe uma dúvida: Dizem que o povo não sabe votar, mas o que fazer num caso desse?



Por Leo Nunes - 08.04.10

Inverdade.

Peguei o celular. Sei que não se pode fazer isso ao dirigir, mas era necessário. Se não fizesse isso naquele momento, sei que ficaria mofando até meu filho se arrumar. Liguei para ele informando que estava saindo do trabalho e que passaria dentro de vinte minutos para buscá-lo para írmos à casa da avó dele.

Eu já estava num engarrafamento terrível, um calor de 39 graus, suando igual a um gambá - nem sei se esse bicho sua, sei que fede à beça -, fora a dor de cabeça causada pela labutação desse dia. Ele atendeu chorando. Bateu a preocupação.

- O que houve, rapaz? - perguntei acelerando um pouco mais o carro.

- Machuquei o dedo do meu pé brincando, pai! - respondeu-o com uma voz mais chorosa ainda.

- Mas como foi isso, meu filho? Aguarde que o pai já está chegando!

Devido à nervosidade, não me recordo bem o que aconteceu no caminho, só sei que o que seriam vinte minutos, foi reduzido a oito. Chegando à rua da casa dele, vi-o, de longe, brincando normalmente, como se nada tivesse acontecido. Fui me aproximando, parei o carro, pus a cabeça para fora da janela e perguntei a ele:

- Menino, você não está machucado?

Ele virou pra mim com um sorriso irônico e debochado dizendo-me:

- Primeiro de abril, papai.



Por Leo Nunes - 01.04.10

Apagaram-me.

No último sábado, 27 de março, entre 20h30 e 21h30, houve uma campanha mundial para que se apagassem as luzes das residências entre outras. Seria uma forma de combater as causas do aquecimento global.

Antecipei umas coisas que tinha para fazer no computador, arrumei o quarto que estava precisando, tomei logo um banho e me deitei antes do horário do evento. Novela não vejo mesmo, só às vezes. Após ela, passaria um filme interessante, e me preparei para assisti-lo.

20h29, apaguei as luzes. Veio um soninho daqueles, mas não dormi. Aproveitei para pensar nos momentos ocorridos na semana. Uma retrospectiva.

Passados sessentas minutos, levantei-me e preparei tudo para ver o tal filme. Liguei o interruptor da lâmpada do quarto e nada. No escuro, fui lentamente à sala, e fiz o mesmo. E mais uma vez, nada.

- Ué? O que aconteceu? - pensei.

Depois de várias tentativas, restou-me olhar pela janela. Nenhum vizinho tinha luz elétrica em seus lares naquele momento. A rua estava completamente um bréu. Nem a lua apareceu para clarear aquela escuridão. Ouvi bem longe um senhor que mora três casas após a minha gritar:

- Ninguém aguenta mais essa companhia de energia elétrica!!

Resumindo a história, a gente se esforça, se prepara para ajudar esses movimentos a favor do meio ambiente, e só nos ferramos.

A luz só voltou por volta das 4h da manhã. E nem mencionei o calor que fez naquela noite...Já viu como foi para dormir, né?



Por Leo Nunes - 29.03.10