segunda-feira, 25 de março de 2013

Conto Com Todos - "A Flor do Sertão"

Juntamente com Fabiana Ratis e Rosângela Lustosa, colegas do Twitter, escrevemos um conto coletivo, no qual cada um escrevia um parágrafo, costurando cada um deles, formando-se uma "colcha de retalhos".
A ideia mostrou que a criatividade não tem limites acerca da arte de escrever. Seja só ou em conjunto, uma história sempre pode ser bem contada. Divirtam-se e comentem.



Trêmula e abatida. Nervosa ao ponto de não conseguir unir duas sílabas para completar uma só palavra. Coloquei-a sentada na cadeira da varanda, local onde encontrei em prantos logo assim que abri a porta. As roupas pareciam estar intactas, o que não aparentava nenhuma agressão recebida. No rosto, além do semblante de medo, nenhuma marca de violência física, o que me deixou, a princípio, menos tenso. Entretanto, percebi algo que me chamou a atenção, seus pés estavam completamente sujos de lama, e há um bom tempo não chovia na região. E o pior é que não conseguia obter nenhuma informação do ocorrido, pois o choro prevalecia. Fui até o portão, olhei para os dois lados da rua, não tinha uma viva alma transitando naquele momento, Com receio, levei-a pra dentro de casa, e tranquei a porta por precaução. Deitei-a ao sofá, e fui buscar um copo de água com açúcar para tentar acalmá-la.

A casa era simples e a água que tinha para beber não era potável. Não tive coragem de forçá-la a beber. Disfarcei para que ela não ficasse mais constrangida. Naquele rincão da Chapada do Araripe, na divisa entre os estados de Pernambuco e do Ceará, a escassez de tudo pairava no silêncio quase desumano. Como recenseador do IBGE, ofereci-lhe minha água. Com um sorriso tímido, disse-me o nome dela e muito mais: Cecília Clara Vitoriano Mendes, 4 filhos ainda pequenos, e o marido, que tinha ido para São Paulo em busca de serviço, não dava notícia há dois anos. Embora sofrida, dona Cecília tinha traços finos e aos poucos se revelava uma mulher educada, com modos refinados. Estava cansada, depois de andar dez quilômetros, naquele sol inclemente, para buscar água no açude mais próximo.

Pouco tempo depois, ela adormeceu. Cansada, sua resistência já não era grande e como a inquietação tinha passado, o corpo relaxou sobre as almofadas do sofá. Aqueles traços eram familiares. Não sabia de onde tinha visto aquela mulher. Ao certo, nem sabia se essa percepção era verdadeira, mas algo me trazia um conforto ao cuidar da moça, que me parecia conhecê-la há tempos. Embora isso me intrigava um pouco, não era o que mais me incomodava. Eu estava com uma mulher que, aparentemente, nunca vi antes, que apareceu em minha casa, de maneira assustadora, precisando de socorro e ao certo eu não sabia o que se passava. Precisava descobrir algo sobre sua vida, para que pudesse ajudá-la, ou me livrar de tal problema. A única coisa a fazer no momento, era esperar que acordasse para indagá-la sobre o que se decorria.
Passou-se mais ou menos duas horas, e meu sono também chegou. Adormeci na poltrona.

Não sei por quanto tempo dormi, mas um aroma de café me fez desperto, porém desnorteado... Foi quando me lembrei da misteriosa. A figura apareceu na sala com uma caneca de café em minha direção. Já não parecia assustada e pude vislumbrar traços de beleza escondidos nas vestes maltratadas. Ela pediu-me para limpar a casa, disse-lhe que não carecia. Ela, fingindo não ouvir, começou a arrumar o pouco que havia. Dei uma saída ao terreiro para matutar o que estava acontecendo. Eu, que vivia sozinho há tanto tempo, tinha uma estranha nos meus aposentos, já tomando conta dos meus pertences... eram poucos, mas eram meus. Estaria ficando abestado por acaso?

Eu estava carente. Aos 36 anos, tão novo e já viúvo há dois anos. Minha esposa morreu no parto do nosso segundo filho, Vitório. Dona Cecília era uma senhora de respeito, mas logo percebi a tristeza do abandono em seu olhar. Eu precisava refazer a minha vida e ela também. Passei a olhá-la com outros olhos. Olhar de admiração, por enquanto apenas sondando, observando. Não queria parecer precipitado, mas a companhia dela me dava um novo ânimo. Ficamos amigos. Decidi que iria construir uma cisterna para acumular água. E ela se ofereceu para ajudar. Passou a frequentar minha casa, indo embora no fim da tarde. Prometi a dona Cecília que ela não mais passaria privações por falta d'água. Não saía da minha cabeça a imagem dela, com os pés sujos de lama, vinda do açude quase seco, onde o pouco d'água que restava era barrenta e imprópria para o consumo.

Pensativo. Foi assim que passei a manhã inteira daquela sexta-feira. Fazia uma semana que aquela mulher bateu em minha porta em estado de choque, e sabia que em instantes ela apontaria no portão novamente. Algo me intrigava: depois do primeiro dia, Cecília nunca mais falou dos filhos, nem de onde morava, nem mais detalhe nenhum da sua humilde existência. É como se ela estivesse formando uma nova vida, deixando o amargo passado para trás, e isso me fez ficar desconfiado. O relógio pendurado na parede da cozinha marcava doze horas e quinze minutos quando alguém bateu no portão, e como de costume dos últimos dias, achei que fosse Cecília, e fui atendê-la. Ao chegar à porta da varanda, deparei-me com um homem alto, carrancudo, de chapéu e um paletó surrado, com olhar fixado em minha direção.

- Pois não, senhor! - Dirigi-me ao sujeito.

- Sou Benedito Vitoriano, marido de Cecília, e vim ter um prosa com o senhor. - ele me respondeu com uma voz rouca e nada amigável.

Confesso que me assustei com aquela inesperada visita. Mas não podia demonstrar, tinha que ficar calmo.

- Meu nome é Ricardo. A que devo o prazer da visita, Seu...

- Minha mulher tem andado muito por aqui, andei sabendo. E não sou "home" de levar desaforo pra casa!

- Cecília é uma mulher direita e o senhor não tem nenhum motivo pra desconfiar...

- Andam dizendo por aí que sou corno e o motivo está aqui na minha frente!

E o homem, sacando uma peixeira da bainha pendurada na cintura, partiu em minha direção, com o braço levantado. Eis, que um vulto de mulher, vindo do nada, saltou-lhe na frente:

- Não cometa essa loucura, Benedito! A polícia já te procura por todo o estado e você ainda pretende fazer mais besteira? Suma antes que eu mesma procure a autoridade para lhe levar daqui! - esse foram os gritos de Cecília ao entrar na frente do marido.

- Eu vou, mas dessa vez é pra nunca mais voltar, Cecília! Eu não sou "flor que se cheira", mas também não merecia tudo o que já me fez passar nessa vida. Cuide bem das "criança", coisa que nunca deixou que eu fizesse. Inté. - voltando a guardar a arma, o homem deu as costas e em passos curtos e lentos, cabisbaixo, foi se afastando da casa sem se quer olhar para trás, até que sumisse no fim da estrada.

Eu não tinha mais cor. O susto que tomei me deixou subitamente plantado no chão que pisava. Não tinha forças para mover minhas trêmulas pernas, meus braços pareciam pesar uma tonelada cada, e minha voz parecia ter sido levada pelo raivoso homem que quase me matou. Diferentemente dos meus membros, meu pensamento foi voltando ao normal, e consegui olhar para a mulher causadora de tal situação e ao mesmo tempo salvadora da minha vida há poucos minutos. Não sabia o que falar, e pelo visto, ela também não. Seu olhar ficou na poeira deixada pelas pegadas do Benedito, até que se virou lentamente para mim, mas não conseguiu me direcionar o olhar. Depois de minutos naquela situação de silêncio, ela tomou a estrada sentido contrário do marido, e se foi, do mesmo jeito que ele, cabisbaixa e lenta.

Após me debater durante boa parte da noite, finalmente consegui acordar do pesadelo... Minha vida era tão sem perspectiva que havia reproduzido na mente o que gostaria que acontecesse na realidade. Nunca desejei a morte do meu marido, mas, no íntimo, que ele fosse embora. Ricardo Flores, recenseador do IBGE, era homem letrado e fino. Sabia falar com modos, ao contrário de Benedito: rude, grosseiro e metido a valentão. Aturdida, abri os olhos e não encontrei mais o Benedito na cama. Acendi a luz e corri para ver os filhos. Todos estavam dormindo. Mais tranquila, observei um bilhete sobre a mesa da cozinha e comecei a ler: "Sei que se casou obrigada comigo e não é feliz, Cecília. Vou embora e prometo enviar uma ajuda mensal para os meninos. Você está livre para seguir a sua vida", disse Benedito. O dia já estava amanhecendo... Contente, coloquei o melhor vestido e fui ao encontro de Ricardo contar a novidade.



Por Fabiana Ratis(@fabianaratisBR), Leo Nunes(@leo_nunes_rj) e Rosângela Lustosa(@ro_lustosa).


segunda-feira, 18 de março de 2013

Projeto "Conto Com Todos"

Juntamente com amigos escritores do Twitter, tive a ideia de criarmos alguns textos de forma "comunitária".

E como funciona isso? Um dos participantes começa um texto, um parágrafo não muito extenso, e os outros vão criando as demais partes, montando assim um quebra-cabeça, cada qual com a sua ideia. O bacana é que surpresas vão aparecendo a cada trecho postado, levando sempre a um final surpreendende e curioso.

Não deixe de acompanhar! O conceito é legal, e a imaginação flui de maneira inesperada a cada momento!

Curta e aproveite!


Forte abraço,

Leo Nunes.


segunda-feira, 11 de março de 2013

Tá de Sacanagem???

Viajar para lugares diferentes de onde vivemos gera sempre a curiosidade, sobretudo pelos costumes dos locais. E isso não é só para cidade do interior não, isso ocorre nas grandes metrópoles também. É cada coisa que a gente vê, e acaba nos gerando estranheza por ser diferente do que estamos acostumados.
 
Passei uma semana na capital paulista, ou paulistana, sei lá, parece que tem diferença, até pensei em buscar no google, mas depois faço isso, e com isso andei bastante de táxi. História de taxista chega bem próximo da de pescador, mas taxista de outra localidade é mais inusitada ainda.
 
Outro dia, peguei um que parecia que só falava palavra com a letra r: FiRRRmeza? pode bater a poRRRta com foRRRça! PeRRRfeito! Depois de uns minutos de conveRRRsa, ele me perguntou de onde eu era, e eu falei. Ele me olhou pelo retrovisor com uma cara e falou: Meeeeu, você parece com um cantor aqui de SP! E depois de pensar muito, desistiu desse assunto. Depois comentou que gostava muito das pessoas do Rio, que se dava bem com eles, e seu carro ficava mais feliz quando o passageiro era carioca. Aí, chegou a parte mais engraçada da viagem.
 
Ele:
- Meeeeu, tem algumas coisas que vocês falam que é fiRRRmeza! Aqui, quando a gente discoRRRda de alguém, xingamos logo da mãe pra baixo, vocês, cariocas não, falam assim: tá de sacanagem, meu? Ou melhor, tá de sacanagem, sem "meu"...!
 
O resto da viagem, isto é, aproximadamente uns 15 minutos, ele só ria e falava isso: "tá de sacanagem??". Comentou que uma vez esteve na zona sul do Rio, e que conheceu um cara que falava isso pra tudo, "tá de sacanagem" pra lá, "tá de sacanagem" pra cá... e ria o tempo todo!!! Procurou um local de samba aqui no Rio, e esse tal cara só o levou para forró. Ele disse para o sujeito: "tá de sacanagem?? Forró, nordestino, arrasta pé é o que mais tem em SP... Tá de sacanagem!!!
 
Se a minha corrida fosse tarifada pela quantidade de "tá de sacanagem" que ele falou, o valor duplicaria!
 
 
Por Leo Nunes.