Semana passada, presenciei uma cena que me arremessou ao passado. Tem coisas que aconteceram na infância que nunca esqueci. Por outro lado, não lembro o que jantei ontem. Mas vida que segue.
Certa vez, no túnel do tempo, estava caminhando, junto com colegas de classe, para o ponto de ônibus. Era início do ginásio - hoje, ensino fundamental -, quinta ou sexta série, não me recordo bem. Estávamos saindo de mais um dia de aula. Virando a esquina da rua da escola, deparei-me com uma coisa que me imobilizou na hora: dois cachorros, ou melhor, um cachorro e uma cadela grudados um ao outro. Ele por cima, ela imóvel por baixo. Pessoas assistiam como se fosse um ringue, ou uma briga de galo, sei lá, algo do gênero. O movimento do cão parecia a velocidade cinco, conforme o funk menciona. Ela continuava na dela, e o povo vibrava esperando o final. Pronto! Acabou! E eu me perguntei:
- E agora? O que acontece?
Pra mim, aconteceu o inesperado. Na verdade, eu não sabia o que esperar daquilo. Os cachorros ficaram grudados. Os animais ficaram unidos, graças ao pinto do bicho ter inchado. Mas também, com aquele movimento todo, com aquela empolgação, dificilmente o efeito seria outro.
Depois de um tempo, o mais surpreendente: incomodado com a posição, o macho virou a perna por cima dela, e eles ficaram bunda com bunda, cada qual com a cabeça em uma direção, uma para o norte, outra para o sul, porém ainda grudados. Sei que é difícil de imaginar o que narrei agora, mas foi exatamente assim. Quem já viu, sabe o que estou falando. Aquilo foi o ápice pra mim. Parecia um monstro de duas cabeças, algo que me impressionou muito. Fiquei chocado. Nesse período, já tinha perdido dois ônibus, segundo o comentário de um dos colegas presentes. Eles pulavam mais do que se o Flamengo tivesse feito um gol numa final contra o Vasco - que cá pra nós, isso é bem comum, né?
O espetáculo ocorreu em frente a um açougue, e logo o dono do estabelecimento veio com um balde cheio d'água fria e jogou no casal libidinoso. Fim do ato. Cada um correu para um lado da rua, enquanto o público aplaudia imoderadamente. Em seguida, o terceiro ônibus veio, e nele embarquei rumo ao lar.
Depois disso, vi mais algumas "cachorradas" dessas, mas não foram muitas. E de um bom tempo pra cá, nunca mais, até me deparar com uma cadelinha no cio e, obviamente, vários cães tarados atrás da pobrezinha - ou felizarda, depende do ponto de vista.
Não consegui fotografar todos, dois retardatários ficaram fora da imagem. Não tinha como deixar de registrar tal episódio. Ainda bem que ficar parado no engarrafamento serve para algo. Será que ficaram grudados? O que deu pra notar é que não tinha nenhum açougue por perto, para infelicidade da cadelinha.
Por Leo Nunes.

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